Como primeiro ponto de reflexão sobre a língua materna é necessária a compreensão de que o seu domínio é intrínseco a nossa espécie. Ou seja, desde os primórdios da humanidade a linguagem está presente, pois é ela que nos constitui enquanto civilização. Em outras palavras, se considerarmos a existência dos seres humanos, entenderemos que existe, também, linguagem.
Na esteira da compreensão e a importância da linguagem, não podemos desconsiderar que sem ela não existiria sociedade, religião, dominação de povos e territórios. Todo ser humano que não é privado do convívio social, e tem o seu aparelho fonador em pleno funcionamento, desenvolve uma linguagem articulada. Dessa forma, a sociedade humana, tal qual a conhecemos, só pode existir por meio da linguagem.
Para nos auxiliar nessa questão, reportamo-nos a Neves (2002, p. 17):
Por natureza racional, dotado de linguagem, o animal homem estrutura seu pensamento em cadeias faladas. Codifica-as e decodifica-as porque, independentemente de alguém que anuncie isso, ele é o senhor das regras que regem a combinação dos elementos das cadeias que tem a faculdade de produzir. A partir dessa faculdade que lhe dá sua natureza, o homem cumpre sua vocação de animal político [...] comunicando-se com voz articulada que produz sentido e, assim, criando uma sociedade política.
A citação acima nos leva ao entendimento que somente o homem tem a característica única de toda a nossa espécie, que é a linguagem humana articulada em idiomas, em línguas. Ou seja, ao longo da história da humanidade, a vida em sociedade fez com que o homem desenvolvesse línguas, idiomas. Dessa forma, quando nasce um ser humano, ele estará imerso em uma comunidade que fala um determinado idioma e assim o aprenderá. Temos assim, o conceito de primeira língua.
Spinassé (2006, p. 5), trata da aquisição da primeira língua:
A Língua Materna ou a Primeira Língua (L1) não é, necessariamente, a língua da mãe, nem a primeira língua que se aprende. Tão pouco trata-se de apenas uma língua. Normalmente é a língua que aprendemos primeiro e em casa, através dos pais, e também é freqüentemente a língua da comunidade. Entretanto, muitos outros aspectos lingüísticos e não-lingüísticos estão ligados à definição. A língua dos pais pode não ser a língua da comunidade, e, ao aprender as duas, o indivíduo passa a ter mais de uma L1 (caso de bilingüismo). Uma criança pode, portanto, adquirir uma língua que não é falada em casa, e ambas valem como L1.
Vamos exemplificar melhor com um exemplo que acabamos de ler na citação: imagine que uma criança foi gestada por uma mãe francesa e tem um pai americano. Ela nasceu e cresceu no Japão e fala com os seus pais nas duas línguas respectivas, francês e inglês. Já na escola, na rua, no convívio social a sua língua diária é a japonesa. Ou seja, essa criança possui três línguas maternas e a ordem, neste caso, não tem relevância. No entanto, se essa mesma criança, agora com 5 anos, mudasse para a Alemanha e começasse a adquirir o alemão para a sua comunicação, enquanto estiver na Alemanha, teríamos, nesse caso, a segunda língua.
Podemos aproximar a primeira língua com o conceito de língua materna. Bem, caro(a) aluno(a), você já se perguntou a razão de que em todos os países do mundo se estuda muito a língua materna? Você deve ter estudado Língua Portuguesa com intensidade no ensino fundamental e médio. Consegue pensar no motivo para isso? Os Parâmetros Curriculares Nacionais, documentos que, desde o ano 1997, auxiliam no norteamento da educação brasileira, assim se pronunciam com relação ao ensino da Língua Materna:
Ao tomar a língua materna como objeto de ensino, a dimensão de como os sujeitos aprendem e de como os sujeitos desenvolvem sua competência discursiva não pode ser perdida. O ensino de Língua Portuguesa deve se dar num espaço em que as práticas de uso da linguagem sejam compreendidas em sua dimensão histórica e em que a necessidade de análise e sistematização teórica dos conhecimentos lingüísticos decorra dessas mesmas práticas (BRASIL, 1997, p. 34).
O respeito à língua materna não acontece apenas com a língua portuguesa. Como sabemos, a língua materna dos povos indígenas não é o português. Na LDB 9394/96, na seção III – Do Ensino Fundamental, art. 32, fica delimitado o ensino da Língua Materna para os indígenas, a saber: “§ 3º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem”. A citação retirada da LDB 9394.96 confirma o respeito à língua materna das comunidades indígenas.
A Formação da Língua Portuguesa no Brasil
A língua é um organismo vivo que se modifica ao longo do tempo. Palavras novas surgem para expressar conceitos igualmente novos; outras deixam de ser utilizadas, sendo substituídas.
Na época das grandes navegações, Portugal conquistou inúmeras colônias e o idioma português foi influenciado pelas línguas faladas nesses lugares, incorporando termos diferentes como "jangada", de origem malaia, e "chá", de origem chinesa. O período renascentista também provocou uma série de modificações na língua, que recebeu termos eruditos, especialmente aqueles relacionados à arte.
Os colonizadores portugueses, principalmente os padres jesuítas, difundiram o idioma no Brasil. No entanto, diversas palavras indígenas foram incorporadas ao português e, posteriormente, expressões utilizadas pelos escravos africanos e imigrantes também foram adotadas. Assim, o idioma português foi se juntando à família linguística tupi-guarani, em especial o Tupinambá, um dos dialetos Tupi. Os índios, subjugados ou aculturados, ensinaram o dialeto aos europeus que, mais tarde, passaram a se comunicar nessa "língua geral", o Tupinambá. Em 1694, a língua geral reinava na então colônia portuguesa com características de língua literária, pois os missionários traduziam peças sacras, orações e hinos, na catequese.
Com a chegada do idioma iorubá (Nigéria) e do quimbundo (Angola), por meio dos escravos trazidos da África e com novos colonizadores, a Corte Portuguesa quis garantir uma maior presença política. Uma das primeiras medidas que adotou, então, foi obrigar o ensino da Língua Portuguesa aos índios.
Desde o século XVI, época da formação do Português moderno, o português falado em Portugal manteve-se mais impermeável às contribuições linguísticas externas. Já o Brasil, em decorrência do processo de formação de sua nacionalidade, esteve mais aberto às contribuições linguísticas de outros povos.
Ainda hoje o português é, constantemente, influenciado por outras línguas. É comum surgirem novos termos para denominar as novas tecnologias do mundo moderno, além de palavras técnicas em inglês e em outros idiomas que se aplicam às descobertas da medicina e da ciência. Assim, o contato com línguas estrangeiras faz com que se incorporem ao idioma outros vocábulos, em sua forma original ou aportuguesados.
Atualmente, existem muitas diferenças entre o português que falamos no Brasil e o que se fala em Portugal. Tais diferenças não se limitam apenas à pronúncia das palavras, facilmente notabilizada na linguagem oral. Existem também diferenças de vocabulário (só para citar um exemplo, no Brasil dizemos "trem", em Portugal se diz "comboio") e de construção gramatical (enquanto no Brasil se utiliza uma construção como "estou estudando", em Portugal prefere-se a forma "estou a estudar").
Disponível em: Só Português (2018, on-line).

A função do professor de Língua Portuguesa vai muito além de um simples dar conteúdos gramaticais. Partimos do princípio de que nossos alunos, tendo como suporte as aulas de Língua Portuguesa, devem ser capazes de melhorar seu desempenho linguístico, ou seja, desenvolver sua competência comunicativa. Desse modo, não há como tratar do ensino de língua materna sem fazer menção à língua como processo de interação verbal. Para que esse processo se realize concorrem vários fatores, como a situação comunicativa e a própria organização e estrutura do discurso. Isso significa que os aspectos pragmáticos, semânticos e sintáticos não podem ser analisados de forma autônoma. Em relação a esse aspecto, vale a pena ressaltar que não se justifica, por exemplo, o professor trabalhar a morfossintaxe em frases isoladas (frases ideais, distantes do uso e da realidade linguística). Não há como analisar qualquer fato da língua sem considerar seu funcionamento. Acerca do funcionamento da língua, sabemos que até mesmo as crianças, desde suas primeiras manifestações verbais, já dominam as possibilidades de engendramento da língua no discurso, uma vez que mobilizam estruturas verbais para evocar sentidos sempre renovados em suas enunciações. Tal fato mostra que o funcionamento da língua é apreendido na vivência de atos enunciativos, no “aqui e agora” de cada enunciação e não pela exposição repetitiva a exercícios estruturalistas, nem pela memorização de metalinguagem. A língua se dá a conhecer no seio da vida em sociedade, nos valores culturais que cada emprego de unidades agrega ao discurso.
Fonte: Toldo e Dietrich (2015, p. 121).

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