A escola precisa assegurar a todos os alunos, diariamente, a vivência de práticas reais de leitura e produção de textos diversificados (MORAIS; ALBUQUERQUE, 2004, p.15).
A criança quando adentra o espaço escolar traz consigo ou recebe da própria escola o caderno, lápis, borracha. Apesar de toda a revolução tecnológica e a inserção dessas tecnologias em sala de aula, o aluno tem em seu poder esses instrumentos que o auxiliarão não somente no processo inicial da leitura e escrita, mas em etapas posteriores que o levarão à produção de textos. As folhas do caderno em branco podem ser consideradas como uma tela em branco para que o aluno possa, por meio da mediação do professor e o acesso a diversos textos, construir uma alfabetização textual.
Com base nessas primeiras considerações e no entendimento de que a escola precisa assegurar às crianças uma vivência de leitura e produção de textos diversificados, traremos nas páginas seguintes a colaboração de teóricos que enfatizam essa necessidade, assim como o comprometimento da escola para assegurar em escala progressiva que essas crianças façam uso dos mais diversos gêneros textuais.
Para a compreensão da importância do uso dos textos em sala de aula nos apropriamos da contribuição de Marcuschi (2008, p. 155), que conceitua os gêneros textuais e os define como:
textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam os padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas.
A citação acima nos permite uma visualização, ainda que por meio do pensamento da dinâmica, do dia a dia com relação aos diversos padrões sociocomunicativos ou gêneros textuais com os quais convivemos diariamente. Esses gêneros nos chegam por meio da mídia, nos sinaleiros, nas ruas, quando recebemos das pessoas panfletos anunciando ou vendendo algo. Ainda nessa mesma dinâmica, temos os outdoors e as placas que estão espalhados pela cidade como um todo. As crianças também participam dessa dinâmica e a partir dessas experiências que, a princípio, são visuais, vão construindo o seu processo de alfabetização a partir desses textos.
A fim de subsidiar as nossas primeiras reflexões anunciadas acima, apropriamo-nos do excerto do livro de Ruth Rocha “O menino que aprendeu a ler”. O personagem João, criado por Rocha, ainda sem ter acesso aos códigos linguísticos se vê diante de alguns gêneros textuais e com o auxílio de sua mãe entende que as placas indicadas nas esquinas têm a função de identificar o nome das ruas, assim como facilitar o acesso das pessoas.
Em cada rua, na esquina, uma placa pequenina.
João queria saber:
- O que é aquela placa, mãe?
Todas as esquinas têm.
- É o nome da rua filho (ROCHA, s/d, p. 6).
Ao considerarmos que os textos são um condutor para as vivências das práticas reais de leitura, a literatura infantil seria uma oportunidade de explorar esse gênero textual e propor atividades que desafiem a criança a elaborar as suas próprias placas. Já pensou nessa possibilidade em sala de aula?
Com relação aos gêneros textuais Marcuschi (2008) aponta alguns, a saber: a aula expositiva, a receita culinária, o cardápio de restaurantes, a bula de remédios, os bilhetes, conversas pelo computador, lista de compras, aulas virtuais, edital de concurso, notícias de jornais, reunião de condomínio, ligações telefônicas, cartas, notícias jornalísticas, horóscopo, etc.
Além dos gêneros textuais apresentados acima, apresentaremos alguns gêneros orais a partir das contribuições de Evangelista et al. (2009):,
Há gêneros orais de diferentes graus de formalidade, que requerem diferentes graus de elaboração da linguagem: o bate papo na hora do recreio, o diálogo médico-paciente durante uma consulta médica, o sermão na igreja, a palestra diante de uma platéia desconhecida, o depoimento de uma testemunha diante da autoridade policial ou judicial (p.155-156).
De posse das afirmações acima, observamos que existe uma variedade considerável de gêneros textuais e orais. Esses gêneros poderão ser utilizados em sala de aula para a produção de textos desde as primeiras séries do Ensino Fundamental e tornando progressiva a sua utilização de acordo com o desenvolvimento do aluno e das habilidades e competências exigidas para cada tipo de texto.
Ainda, com relação aos gêneros orais, acreditamos que esses têm uma função na sala de aula que é a possibilidade da interação dos alunos a partir da sua oralidade. Nesse sentido, estimular os alunos à exposição oral contribui para a habilidade de falar em público, a fim de que os alunos, gradativamente, tenham acesso a essa importante forma de comunicação com os outros e com o mundo.
Uma vez conhecidas e classificadas algumas formas de gêneros textuais e orais, compartilhamos da ideia de Evangelista et al. (2008), a qual faz menção à importância da utilização dos textos para o uso real da escrita e sua função na sociedade.
O aprendizado da língua escrita requer não só a apreensão de um código formal (o alfabeto, as convenções ortográficas, os procedimentos de organização de uma página, etc.), mas, principalmente, a apropriação de uma multiplicidade de regras sociais nas quais se inclui o uso da linguagem. Em outros termos, não basta a técnica de escrever segundo os padrões formais (gramaticais), é necessário perceber que um sistema de escrita cumpre, numa sociedade, inúmeras funções; daí a produção e circulação de tantos textos com diferentes formas e funções – ou seja, textos de diferentes gêneros (p. 22).
Quanto mais a escola proporcionar aos alunos atividades que contemplem uma diversidade de gêneros textuais estará contribuindo para o aprendizado da língua para além da apreensão dos códigos e convenções ortográficas. Do ponto de vista didático e dos objetivos pedagógicos, acreditamos que a interação dos alunos com diversos gêneros textuais é de suma importância. Nesse sentido, Schneuwly e Dolz (2004) apontam dois objetivos pedagógicos que concorrem para o planejamento das atividades:
[...] trata-se de aprender a dominar o gênero, primeiramente, para melhor conhecê-lo ou apreciá-lo, para melhor saber compreendê-lo, para melhor produzi-lo na escola ou fora dela; e, em segundo lugar, de desenvolver capacidades que ultrapassem o gênero e que são transferíveis para outros gêneros próximos ou distantes (p. 80).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais apontam para o ensino em atividades com base nos gêneros textuais. Atentemo-nos para uma passagem do documento.
Ensinar a escrever textos torna-se uma tarefa muito difícil fora do convívio com textos verdadeiros, com leitores e escritores verdadeiros e com situações de comunicação que os tornem necessários. Fora da escola escrevem-se textos dirigidos a interlocutores de fato. Todo texto pertence a um determinado gênero, com uma forma própria que se pode aprender. A diversidade textual que existe fora da escola pode e deve estar a serviço da expansão do conhecimento letrado do aluno (BRASIL, 1997, p. 34).
Ainda, devemos considerar que cada gênero textual prevê um tipo de comunicação, isso implica em dizer que nas relações humanas são utilizadas diferentes formas de linguagem. Com base nessa afirmação existem diferentes gêneros e sua forma de aplicação na comunicação.
Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos. Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico. O estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais: tipo de estruturação e de conclusão de um todo, tipo de relação entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal relação com o ouvinte, ou com o leitor, com o interlocutor, com o discurso do outro, etc. (BAKHTIN, 2003, p. 284).
Com base nos autores que convidamos para o debate acerca dos gêneros textuais, ainda que de forma limitada, acreditamos ter levado você, caro(a) aluno(a), à reflexão acerca dos gêneros textuais e à relevância enquanto prática pedagógica intencional para a sistematização da alfabetização e o uso na vida cotidiana.
Os gêneros vão sofrendo modificações ao longo do tempo, de acordo com o momento histórico e social em que estão inseridos. Cada situação social origina um gênero, com suas características que lhe são peculiares. Dessa maneira, também é possível observar o entrelaçamento de vários gêneros. Ao pensarmos a infinidade de situações comunicativas e que cada uma delas só é possível graças à utilização da língua, podemos perceber que infinitos também serão os gêneros, como pontua Bakhtin (2003, p. 262): “a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana”. Além disso, cada campo da atividade humana possui uma gama diversificada de gêneros que podem sofrer modificações conforme o desenvolvimento e a complexificação da atividade.
Fonte: Barth e Freitas (2015, p. 14).

No quadro, a seguir, apresentamos o agrupamento de alguns gêneros textuais, assim como as suas características.
Quadro 1 - Exemplos de Gêneros Textuais
Fonte: Schneuwly e Dolz (2004, p. 21).

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