Segundo Lowenfeld e Brittain (1970), a primeira infância ou os primeiros anos de vida são os anos mais importantes para o desenvolvimento da criança. Ao entregar um papel e um lápis ela, imediatamente, iniciará um desenho.
De acordo com os referidos autores o desenho da criança passa por três fases até chegar à escrita, sendo estes:
Abordaremos nos tópicos a seguir os aspectos de cada uma destas fases.
O desenvolvimento do desenho infantil inicia-se com traços disformes e desordenados que não possuem, inicialmente, nenhum significado. No decorrer do processo de desenvolvimento da criança estes traços passam a ter significado e a tomar forma.
As garatujas se classificam em três níveis, segundo Lowenfeld e Brittain (1970), sendo estas:
As garatujas desordenadas são traços realizados utilizando o lápis em várias direções, os riscos realizados podem se repetir várias vezes para frente e para trás.
De acordo com Lowenfeld e Brittain (1970) a criança muitas vezes não está olhando para o desenho que está realizando, está olhando para outra direção, no entanto isso não a impede de continuar o desenho.
Podemos perceber estas características no desenho apresentado abaixo. O Pedro de 2 anos e 10 meses utilizou somente um lápis para a realização do desenho, trocou de mão várias vezes, assim como realizou traços mais fortes e alguns mais fracos.

Outro aspecto da garatuja desordenada é que a criança utiliza todo o papel, de ambos os lados.
De acordo com as autoras nesta fase a criança não tenta imitar ou desenhar algo em específico, os desenhos apenas são baseados nos aspectos físicos e psicológicos. Como o desenvolvimento motor ainda não está desenvolvido e ela não possui um controle muscular perfeito, o movimento que a criança faz para a realização do desenho é de cerca de 30 centímetros.
Conforme a criança vai se desenvolvendo passa a perceber que pode ter controle sobre aquilo que desenha, sobre os traços que faz no papel.
Lowenfeld e Brittain (1970) afirmam que neste período a criança fica entusiasmada em desenhar, pois possui tanto o controle motor quanto o visual sobre o seu desenho.
Podemos visualizar este avanço no desenho de Lorena de 3 anos, onde a forma do seu desenho está organizada em apenas uma direção, as linhas são paralelas uma as outras, permanecendo as linhas dentro dos limites da página.

As autoras ainda citam que nesta fase as crianças costumam desenhar com mais frequência. Estes ganhos também se refletem em outros aspectos, como no desenvolvimento de atividades simples que antes não conseguiam realizar sozinhas.
Nesta fase as crianças começam a atribuir nomes às suas produções, mesmo que os desenhos não possuam semelhança com o real. De acordo com Aroeira, Soares e Mendes (1996, p. 54):
Neste estágio é comum a criança dizer o que vai desenhar. Muitas vezes, no início do desenho a criança explica que uma linha é uma árvore e, antes mesmo de terminar o desenho, diz que aquela mesma linha é um cachorro correndo. O importante é que os rabiscos e traços têm um significado real para a criança que os desenha. Sua vontade de imitar o adulto agora é mais evidente, traduzindo-se no desejo de escrever, de comunicar-se com alguém.
Podemos evidenciar as palavras das autoras no desenho de Beatriz de 4 anos, em que a criança atribui nome ao desenho, no entanto, o mesmo não possui semelhança com o seu retrato, com o cachorro ou a boneca.

Apesar do desenho não ter apresentado grande mudança desde a garatuja desordenada, o avanço foi significativo.
De acordo com Seber (1997, p. 23):
No início, a atividade gráfica é caracterizada pelo simples prazer de rabiscar, de exercitar motoramente a ação de deixar marcas no papel. Pouco a pouco, o controle dos movimentos do braço e das mãos é maior. A criança realiza formas que envolvem curvas em direções contrárias, mas combinadas no mesmo movimento, ou seja, faz traços que diferem quanto ao sentido.
Partindo desta fase, a criança passará a desenhar com mais frequência, variando nos modelos de garatujas que apresentará. É importante ressaltar que, mesmo não tendo nenhuma semelhança com o real, o desenho da criança explicita um meio de comunicação.
Para Lowenfeld e Brittain (1970) a criança nesta fase apresenta a evolução do seu desenho. Neste período as suas linhas se transformam em contornos que evidenciam formas que podem ser reconhecidas. Nesta tentativa de representação o “primeiro símbolo criado é o homem”.

Como podemos observar no desenho acima, Gustavo de 5 anos em seu desenho traz a figura do homem, ser humano, com as características que o compõem (cabeça, membros, olhos, nariz, boca, cabelo). Nesse contexto, é preciso considerar que: “Outro ponto de vista admite que a representação ‘cabeça-pés’ é o que a criança, de fato, sabe sobre si mesma, e não uma representação visual de um todo. A cabeça é o lugar onde se come e se fala” (LOWENFELD; BRITTAIN, 1970, p. 150).
Aroeira, Soares e Mendes (1996) pontuam que no traçado do desenho a criança mostra a sua posição no mundo e no espaço, ela pode apresentar desenhos grandes ou pequenos, com menos ou mais detalhes.
A seguir, observe o desenho de Danilo que possui 5 anos, onde podemos visualizar a riqueza de detalhes:

De acordo com Lowenfeld e Brittain (1970) nesta fase a criança está evoluindo, desta forma, seus conceitos e símbolos que representam o seu desenho também são modificados. Hoje ela desenha uma árvore de forma diferente na qual desenhou ontem e desenhará amanhã.

Para Aroeira, Soares e Mendes (1996) é um grande prazer à criança obter o controle do traçado, pois a partir daí os seus desenhos serão mais complexos e ricos em detalhes, além de ter em seus desenhos semelhança com os objetos nos quais está desenhando.
Lowenfeld e Brittain (1970) pontuam que a fase esquemática onde todo desenho será considerado um esquema, um símbolo, em que a criança chegou e não fará progressos enquanto não houver estímulos, experiências intencionais para que isso ocorra.
Para algumas crianças os conceitos podem ser mais complexos e ricos, enquanto outras crianças apresentam conceitos mais precários.
A seguir podemos visualizar o desenho de Gustavo de 7 anos:

No desenho do Gustavo podemos perceber que há um esquema puro, segundo Lowenfeld e Brittain (1970, p. 138) é “quando a representação se confina ao objeto”. Podemos ainda acrescentar que esquema de um objeto é o conceito a que a criança finalmente chegou e representa seu conhecimento ativo do objeto. A criança sempre desenha, por exemplo, um carro com a estrutura e as rodas. A partir do momento que passa a agir sobre o objeto no qual está representando, a criança está manifestando suas experiências particulares, desta forma, passa a desenhar o carro com mais detalhes, por exemplo, acrescenta portas e para-choques.
Livro: Pedagogia do desenho infantil
Editora: Alinea
Autor: Paulo de Tarso Cheida Sans
Sinopse: “Pedagogia do desenho Infantil” reúne tópicos explicativos sobre a importância das artes para a formação da pessoa, sobretudo, pelo ato de desenhar, gesto este que é natural a todas as crianças de qualquer parte do mundo. O desenho infantil é abordado sob o aspecto de sua valorização, no ensino de modo geral, favorecendo a compreensão de sua real importância para o desenvolvimento sadio do ser humano no decorrer de sua infância. Dentre os assuntos enfocados na obra, está a importância da escola e da criatividade para o desenvolvimento do ser humano; o desenho como um importante meio de comunicação e de expressão; aspectos da Educação em Arte; o desenho infantil e algumas releituras de obras artísticas. Também são abordados alguns itens sobre a conduta do educador a fim de proporcionar uma pedagogia saudável, sem bloqueios para a criatividade da criança e do jovem. Um dos objetivos deste livro é auxiliar o estudante - principiante da área da educação e artes - e os pais - que ainda não conheçam a importância e o significado do desenho para a criança.
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