A Linguística é uma área muito importante de estudos que é pouco conhecida da população, de uma maneira geral. Caro(a) aluno(a), você já se perguntou qual é o objeto de estudo da Linguística? De acordo com o dicionário Priberam de língua portuguesa (2013), Linguística é a ciência que se dedica ao estudo das línguas. Na verdade, ela é mais ampla que isso: a Linguística estuda a linguagem humana em vários aspectos, por exemplo, fonético, morfológico, sintático, semântico, social e psicológico.
Borba (2003, p. 75) definiu Linguística como sendo a ciência que se ocupa em estudar a linguagem humana e natural, “para cumprir um objetivo básico que é determinar a natureza da linguagem e a estrutura e o funcionamento das línguas”. O autor ainda traz as duas direções em que este estudo se dirige, sendo estas:
1- Procura desenvolver toda uma metodologia de trabalho que vai desde a delimitação dos conceitos operatórios até a discussão e montagem de modelos descritivos e/ou explicativos dos fenômenos linguísticos.
2- Procura observar e descrever línguas testando métodos e técnicas tentando descobrir como é a estrutura linguística e como funcionam as línguas (BORBA, 2003, p. 75).
Diante disso, cabe entendermos um pouco mais sobre as variações linguísticas (fonética, fonológica, morfológica, sintaxe e semântica), para que possamos entender como a Linguística influencia no processo de alfabetização.
Segundo Borba (2003, p. 99) “a fonética ocupa-se da parte significante do signo e, portanto, estuda todos os sons possíveis de serem produzidos pelo aparelho fonador humano”. Seria uma escrita baseada no significante, de acordo com Cagliari (2009, p. 88), “onde a escrita representa o significante sem revelar o significado”.
Ainda, a fonética se divide em três grupos de estudos: a fonética articulatória, fonética auditiva e a fonética acústica. A fonética articulatória estuda a articulação, o “aparelho fonador humano”, do som e da sua qualidade articulatória. A fonética acústica estuda a “descrição fonética de línguas particulares”, segundo Borba (2003). Já a fonética auditiva é aquela que “considera a perspectiva do ouvinte”, segundo Fiorin (2010, p. 12).
Fonética acústica: o som é formado por ondas que se propagam no ar a 340 m/s. A onda é criada por uma vibração (movimento repetido) que pode ser periódica e não periódica, simples e composta. O movimento do pêndulo, por exemplo, é um periódico simples (BORBA, 2003, p. 100).
De acordo com o mesmo autor, o som produzido poderá ser forte ou fraco, grave ou agudo dependendo da intensidade e frequência dos movimentos vibratórios. Além disso, “a fonética articulatória trata dos sons que o chamado aparelho fonador é capaz de produzir. São muitas as possibilidades, quase 5.000 mil, produzidas comumente durante a respiração” (BORBA, 2003, p. 101).
Podemos verificar a relação entre estes três aspectos, verificando o quadro a seguir:
Quadro 1 - Dimensões da fala
Fonte: Fiorin (2010, p. 12).
De acordo com Fiorin (2010) amplitude, frequência e o tempo são os três aspectos que formam a fala acusticamente. A amplitude se refere ao deslocamento, ou seja, ao movimento, é ela quem determina se o som é forte ou fraco. A frequência se refere à vibração, é ela quem determina a altura do som e se ele é grave ou agudo. Por fim, o tempo, se refere aos movimentos articulatórios, é ele quem define a duração, se o som será breve ou longo.
Mas para que possamos entender melhor o aparelho fonador, segue abaixo uma representação gráfica:

Fiorin (2010) nos apresenta algumas partes que compõem o aparelho fonador, em que algumas estão envolvidas no processo da fala, sendo estes: 1 – pulmão; 2 – traquéia; 3 – laringe; 4 – cordas vocais; 5 – glote; 6 – epiglote; 7 – faringe; 8 – véu palatino; 9 – úvula; 10 – cavidade nasal, 11 – palato duro; 12 – cavidade oral; 13 – arcava alveolar; 14 – dentes; 15 – lábios; 16 – mandíbula; 17 – língua.
Após a verificação do sistema articulatório, os sons produzidos por ele são organizados, segundo o mesmo autor, e este processo intitula-se fonologia.
De acordo com Cagliari (2009) a fonologia se preocupa com “o valor funcional que o som tem na língua”. O mesmo autor ainda afirma que “o valor linguístico diz respeito às funções, atribuições de um som dentro da organização sistemática das línguas. Um som, por exemplo, poderá ter um valor distintivo ou não” (CAGLIARI, 2009, p. 74).
Por exemplo, se substituirmos o G de gato pelo P irá se formar uma palavra nova, o pato. Neste caso, segundo Cagliari (2009), g e p possuem valor distintivo, pois se trocarmos uma letra pela outra teremos palavras diferentes, com significados distintos, e ao realizar esta troca estamos fazendo o que o autor chama de teste de comutação. O teste de comutação é a prova real, ou seja, é a maneira de testar se a palavra possui valor distintivo ou não, pois estes testes revelam as funções linguísticas e os valores fonológicos, levando em consideração que “a linguagem humana é formada essencialmente com unidade chamadas signos” de acordo com Cagliari (2009, p. 76), sendo os signos uma “união entre significado e significante”, por isso a necessidade de se estudar a Fonética juntamente com a Fonologia. Ambos se completam no processo da linguagem humana.
Diante disso, podemos afirmar que uma palavra composta por signos possui significante e significado. Exemplo: carro. Significante: C.A.R.R.O (os sons das letras c.a.r.r.o que juntas foneticamente formam a palavra carro), e o significante, Carro: 1 – veículo de rodas para transporte de pessoas ou mercadorias, de acordo com o dicionário Priberam de língua portuguesa (2013).
Por sua vez, ao realizar a análise da palavra carro, segundo Cagliari (2009), muitos linguistas consideram que esta palavra possui dois morfemas. Por morfema, parte integrante da morfologia, Borba (2003) entende que é o estudo da forma, ou seja, “da estruturação da parte significante dos signos e bem assim das regras que determinam as possíveis variações dos significantes” (p. 210). Mas este é assunto do nosso próximo tópico de estudos.
Como já dito no tópico anterior, a morfologia: “é a parte da gramática que trata da forma e dos processos de formação das palavras”, de acordo com o dicionário Priberam de língua portuguesa (2013).
Segundo Fiorin (2010), August Von Schegel formulou uma teoria que mais tarde seria aperfeiçoada por August Schleicher, onde a morfologia se divide em três categorias, sendo estas: isolantes, aglutinantes e flexionais.
Isolantes: onde todas as palavras são raízes, isto é, as palavras não podem ser segmentadas em elementos menores, portadores de informação gramatical e/ou significado lexical. O chinês é uma língua isolante (FIORIN, 2010, p. 263).
Aglutinantes: em que as palavras combinam raízes (elementos irredutíveis e comuns a uma série de palavras) e afixos, distintos para expressar as diferentes relações gramaticais, como o turco.
Flexionais: em que as raízes se combinam em elementos gramaticais que indicam a função das palavras e não podem ser segmentadas na base de “um som e um significado”, ou um afixo para cada significado gramatical, como nas línguas aglutinantes, um exemplo é o latim.
Desta forma, podemos dizer que a Morfologia determina critérios para análise das línguas e das estruturas que cada uma apresenta.
Podemos definir sintaxe como sendo a “Parte da linguística que se dedica ao estudo das regras e dos princípios que regem a organização dos constituintes das frases”, segundo o dicionário Priberam da língua portuguesa (2013).
Borba (2003, p. 181) nos traz a definição de sintaxe da seguinte maneira:
A sintaxe trata das relações que as unidades contraem no enunciado. Seu ponto de partida é, então, a combinatória de formas livres, que seguem dois princípios fundamentais: a sucessão e a linearidade. Exemplo: Vejo crianças brincando no pátio. [...] Só posso expressar isso por meio de uma sucessão linear de unidades: vejo+crianças+brincando+no+pátio.
Ainda segundo este autor, comunicar os conteúdos semânticos na sequência correta é o objetivo da sintaxe, outro apontamento realizado é o de que a ordem que se estabelece na sintaxe está de acordo com aquilo que o falante deseja comunicar, por isso, os elementos se relacionam dentro da frase.
Ainda segundo Borba (2003, p. 182):
Sendo um dos componentes básicos da linguagem, a sintaxe tem como objetivo central fazer que certos conteúdos semânticos, ou melhor, certos conjuntos de representações semânticas sejam veiculados através de sequência. Os tipos de expedientes utilizados para estruturar a sequência e que resultam graus diferentes de coesão entre os constituintes variam muito de língua para língua, mas o esquema e o mecanismo de estruturação dos enunciados são constantes.
Podemos observar os esquemas citados por Borba (2003) no esquema montado pelo autor abaixo:

Como podemos observar no quadro explicitado acima, as representações semânticas estão intimamente relacionadas com as regras de correspondência e as regras sintáticas, que também possuem relação com a sequência linear.
Segundo o dicionário Priberam de língua portuguesa (2013), semântica é o ramo da linguística que estuda o significado da palavra.
De acordo com Borba (2003) a comunicação se dá pela linguagem que, consequentemente, gera o sentido das informações que estão sendo comunicadas, ou seja, gera um signo. “O conteúdo comunicativo tem sempre uma significação independente de ser verdadeira ou falsa, real ou imaginária, conhecida ou desconhecida” (BORBA, 2003, p. 225).
No entanto, ao objetivar definir o significado da palavra, deparamos-nos com uma tarefa um tanto árdua, de acordo com Mussalin e Bentes (2012), tendo em vista que não há um acordo para a definição dos significados das palavras, levando em consideração o sentido que se dá à palavra por meio da fala.
Para as autoras ainda há “três formas de se fazer semântica: a semântica Formal, a semântica da Enunciação e a semântica Cognitiva” (2012, p. 17).
[...] Para a semântica Formal o significado de um termo complexo que se compõem de duas partes, o sentido e a referência. O sentido de um nome, a mesa da professora, por exemplo, é o modo de apresentação do objeto/referência mesa da professora [...]. Já a palavra mesa na semântica da Enunciação significa as diversas possibilidades de encadeamentos argumentativos das quais a palavra pode participar. [...] para a semântica cognitiva, a mesa é a superfície linguística de um conceito, o conceito mesa, que é adquirido por meio de nossas manipulações sensório-motoras com o mundo [...] (MUSSALIN; BENTES, 2012, p. 18-19).
Após apresentar brevemente o que é semântica e algumas de suas vertentes, pois esgotá-la aqui não nos cabe, podemos apontar que a semântica, componente da variação linguística, é parte fundamental para o entendimento de nossa linguagem.
Ao iniciar os estudos sobre linguística, vimos que os estudos sobre linguística dividem-se em cinco áreas, sendo estas a fonética, fonologia, morfologia, sintaxe e semântica. A fonética se divide em três tópicos, os quais estudam o aparelho fonador, onde o som é produzido, a variedade de sons que pode ser produzido e o significado destes sons no ouvinte. A fonética é a soma, o conjunto da anatomia humana com os sons dos signos. A fonologia estuda o valor funcional que o som produzido tem socialmente. Cada palavra, conjunto de signos, produz um som, que serve para comunicação. Já a morfologia estuda o significante, ou seja, estuda o processo de formação das palavras, a junção dos signos. A sintaxe trata do estudo da organização das frases, ou seja, das combinações morfológicas para que a comunicação seja realizada de forma efetiva. E, não menos importante, a semântica que estuda o significado de cada palavra no processo de comunicação.
No entanto, podemos nos questionar ao fim deste estudo sobre qual é a importância da variação linguística na escola.
O estudo da variação linguística na escola é importante para que possamos entender que a linguagem pode ser diferente de uma região para outra do país e de um país para o outro. Como cita Cagliari (2001) o que faz a diferença entre a linguagem são os valores que cada membro possui dentro da sociedade. As pessoas se comunicam de forma diferente porque a linguagem passou por transformações ao longo dos anos, e cada língua adquiriu características de seus grupos.
E preciso queestas diferenças linguísticas sejam aceitas dentro do ambiente escolar, a fimde que possamos compreender as diferentes culturas existentes dentro dasociedade, não fazendo discriminação, mas sim incluindo adentro dos estudos devariação linguística.
Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.
Fonte: Paulo Freire (1991).

Prezado(a) aluno(a), ao chegar ao final desta unidade, que tratou a respeito do desenvolvimento e aquisição da linguagem, podemos concluir que o desenvolvimento desta habilidade é essencial à sobrevivência humana, pois sem ela a comunicação não seria possível.
Nesta breve apresentação a respeito das Concepções do ensino de língua materna, do desenvolvimento e aquisição da linguagem, dos princípios de organização do ensino da linguagem e da variação linguística, o objetivo não era esgotar o assunto, mas sim apresentar subsídios teóricos a fim de que você, acadêmico(a), possa ter noção de como a linguagem se desenvolve.
Neste sentido, o nosso principal objetivo foi abordar como se dá o processo de aquisição da linguagem, a fim de que você possua conhecimento a respeito do processo e que possa realizar intervenções que levem a criança a desenvolver as habilidades de leitura e escrita de forma satisfatória.
Livro: Aquisição da linguagem: uma abordagem psicolinguística
Editora: Contexto
Sinopse: Como o ser humano vai adquirindo, a partir do momento em que nasce, modos de expressão verbal – e não verbal – e formas de interagir com o outro? Responder a questões como essa é o objetivo principal de “Aquisição da linguagem – uma abordagem psicolinguística”, que discute assuntos como a aquisição de língua materna (oral) em crianças, sem e com distúrbios de linguagem, aquisição de segunda língua em crianças e em adultos e aquisição da escrita (letramento, alfabetização, relação fala/escrita).

EMILIA FERREIRO, A ESTUDIOSA QUE REVOLUCIONOU A ALFABETIZAÇÃO
Reportagem por: Márcio Ferrari
Emilia Ferreiro se tornou uma espécie de referência para o ensino brasileiro e seu nome passou a ser ligado ao construtivismo, campo de estudo inaugurado pelas descobertas a que chegou o biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) na investigação dos processos de aquisição e elaboração de conhecimento pela criança - ou seja, de que modo ela aprende. As pesquisas de Emilia Ferreiro, que estudou e trabalhou com Piaget, concentram o foco nos mecanismos cognitivos relacionados à leitura e à escrita. De maneira equivocada, muitos consideram o construtivismo um método.
Tanto as descobertas de Piaget como as de Emilia levam à conclusão de que as crianças têm um papel ativo no aprendizado. Elas constroem o próprio conhecimento - daí a palavra construtivismo. A principal implicação dessa conclusão para a prática escolar é transferir o foco da escola - e da alfabetização em particular - do conteúdo ensinado para o sujeito que aprende, ou seja, o aluno. "Até então, os educadores só se preocupavam com a aprendizagem quando a criança parecia não aprender", diz Telma Weisz. "Emilia Ferreiro inverteu essa ótica com resultados surpreendentes".
Compreensão do conteúdo
Com base nesses pressupostos, Emilia Ferreiro critica a alfabetização tradicional, porque julga a prontidão das crianças para o aprendizado da leitura e da escrita por meio de avaliações de percepção (capacidade de discriminar sons e sinais, por exemplo) e de motricidade (coordenação, orientação espacial, etc.). Dessa forma, dá-se peso excessivo para um aspecto exterior da escrita (saber desenhar as letras) e deixa-se de lado suas características conceituais, ou seja, a compreensão da natureza da escrita e sua organização. Para os construtivistas o aprendizado da alfabetização não ocorre desligado do conteúdo da escrita.
Segundo Emilia Ferreiro a alfabetização também é uma forma de se apropriar das funções sociais da escrita. De acordo com suas conclusões, desempenhos díspares apresentados por crianças de classes sociais diferentes na alfabetização não revelam capacidades desiguais, mas o acesso maior ou menor a textos lidos e escritos desde os primeiros anos de vida.
Sala de aula vira ambiente alfabetizador
Uma das principais consequências da absorção da obra de Emilia Ferreiro na alfabetização é a recusa ao uso das cartilhas, uma espécie de bandeira que a psicolinguista argentina ergue. Segundo ela a compreensão da função social da escrita deve ser estimulada com o uso de textos de atualidade, livros, histórias, jornais, revistas. Para a psicolinguista as cartilhas, ao contrário, oferecem um universo artificial e desinteressante. Em compensação, numa proposta construtivista de ensino, a sala de aula se transforma totalmente, criando-se o que se chama de ambiente alfabetizador.
Ideias que o Brasil adotou
As pesquisas de Emilia Ferreiro e o termo construtivismo começaram a ser divulgados no Brasil no início da década de 1980. As informações chegaram primeiro ao ambiente de congressos e simpósios de educadores. O livro-chave de Emilia, Psicogênese da Língua Escrita, saiu em edição brasileira em 1984. As descobertas que ele apresenta tornaram-se assunto obrigatório nos meios pedagógicos e se espalharam pelo Brasil com rapidez, a ponto de a própria autora manifestar sua preocupação quanto à forma como o construtivismo estava sendo encarado e transposto para a sala de aula. Mas o construtivismo mostrou sua influência duradoura ao ser adotado pelas políticas oficiais de vários estados brasileiros. Uma das experiências mais abrangentes se deu no Rio Grande do Sul, onde a Secretaria Estadual de Educação criou um Laboratório de Alfabetização inspirado nas descobertas de Emilia Ferreiro. Hoje o construtivismo é a fonte da qual derivam várias das diretrizes oficiais do Ministério da Educação. Segundo afirma a educadora Telma Weisz na apresentação de uma das reedições de Psicogênese da Língua Escrita, "a mudança da compreensão do processo pelo qual se aprende a ler e a escrever afetou todo o ensino da língua", produzindo "experimentação pedagógica suficiente para construir, a partir dela, uma didática".
Para ler a reportagem na íntegra, acesse: <http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/estudiosa-revolucionou-alfabetizacao-423543.shtml>. Acesso em: 11 out. 2018.

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