Apenas com a aquisição da tecnologia da escrita – um dos ‘passaportes’– não se tem entrada no mundo da escrita, um outro ‘passaporte’ é necessário: o desenvolvimento de competências para o uso da leitura e da escrita nas práticas sociais que as envolvem (SOARES, 2007, p. 51).
Caro(a) aluno(a)! Você já deve ter ouvido falar que vivemos em uma sociedade letrada, em que a leitura e a escrita estão por toda a parte, não é mesmo? No entanto, atualmente no Brasil, muitas pessoas escolarizadas são consideradas analfabetas funcionais. Essa constatação é objeto de estudo e preocupação da escola, das famílias, dos teóricos da educação, economistas e estatísticos.
As discussões sobre a alfabetização na atualidade convergem para o entendimento de que essa não deve ser resumida a um método de decodificação dos códigos culturais da língua, assim como não deve ser pensada sem significado para a vida social dos indivíduos. Em outras palavras, a alfabetização deve promover o encontro das pessoas com o mundo e com todas as exigências da sociedade atual.
Ao assumirmos que a alfabetização na sociedade atual não pode ser resumida a um método de decodificação, alinhávamos, ao mesmo tempo, a necessidade para além da leitura e da escrita e que essa esteja em consonância com as exigências da sociedade. Para tanto, faz-se necessário conceituar o que seria a alfabetização e letramento. A conceitualização desses dois termos contribuirá para o entendimento de suas especificidades, assim como a importância da conciliação entre ambos com a finalidade de se alfabetizar letrando. Vamos, então, começar pelo conceito de alfabetização?
Etimologicamente, o termo alfabetização significa levar o indivíduo à aquisição do alfabeto, em outras palavras, ensinar a ler e escrever. Desse modo, o caráter específico da alfabetização está centralizado na aquisição do código alfabético e ortográfico, o que ocorre por meio das habilidades da leitura e da escrita (SOARES, 2007).
No que diz respeito ao conceito de alfabetizado, segundo Soares (2004), “alfabetizado nomeia aquele que apenas aprendeu a ler e escrever, não aquele que adquiriu o estado ou a condição de quem se apropriou da leitura e da escrita, incorporando as práticas sociais que as demandam” (SOARES, 2004, p. 19). Com base na autora supracitada, tornar-se alfabetizado significa a decodificação dos códigos alfabético e ortográficos, mas não atinge o grau de incorporação necessário para ter significado e incorporação das práticas sociais.
O alargamento e a expansão do significado de alfabetização ao longo da história da educação brasileira promoveu um direcionamento ao conceito de letramento, promovendo, nas palavras de Soares (2003, p. 8), uma desinvenção da alfabetização.
[...] No Brasil a discussão do letramento surge sempre enraizada no conceito de alfabetização, o que tem levado, apesar da diferenciação sempre proposta na produção acadêmica, a uma inadequada e inconveniente fusão dos dois processos, com prevalência do conceito de letramento, [...] o que tem conduzido a um certo apagamento da alfabetização que, talvez com algum exagero, denomino desinvenção da alfabetização [...].
A interpretação ilusória de novas perspectivas teóricas contribuiu para a negação de práticas e atividades que levassem à aquisição dos sistemas alfabético e ortográficos, de tal forma que o ensino das relações entre sons e letras, assim como a consciência fonológica, a silabação das palavras, eram entendidos como métodos tradicionais. “[...] Passou-se a acreditar que o aluno aprenderia o sistema [...] pelo contato com a cultura letrada, como se ele pudesse aprender sozinho o código, sem ensino explícito e sistemático” (MOREIRA; SILVA, 2011, p. 9).
As discussões atuais sobre a alfabetização, segundo Soares (2003), giram em torno de que as práticas escolares tradicionais são entendidas como as facetas da alfabetização, nesse sentido faz-se necessário perceber que uma prática não pode ser desconsiderada por estar ligada a uma ou outra concepção. O processo de reflexão se dá em torno das contribuições dessas concepções e se essas contribuem de modo significativo para o processo de alfabetização que atenda às necessidades vigentes e contribua para uma educação de qualidade.
Em meados de 1980 é que se dá a invenção do letramento no Brasil, embora esse termo já existisse em lugares geograficamente distantes, assim como na França e Estados Unidos. De modo geral, as preocupações com o letramento se dão em torno da forma de como as pessoas estabelecem as suas relações com o mundo à sua volta. No entanto, essa definição não é suficiente, visto que temos várias graduações e níveis de letramento, considerando a realidade sociocultural, política e econômica do nosso país (SOARES, 2003).
As considerações apresentadas acima ganham força nas discussões e preocupações atuais acerca da alfabetização, sobretudo, no que diz respeito aos resultados sobre a proficiência em Português, em diversas análises e avaliações realizadas.
A estudiosa brasileira Roxane Rojo (2009, p. 100) sintetiza as diferentes ênfases do conceito, classificando o letramento em duas versões: fraca e forte. A versão fraca “[...] estaria ligada ao enfoque autônomo, é (neo) liberal e estaria ligada a mecanismos de adaptação da população às necessidades e exigências sociais do uso da leitura e escrita, para funcionar em sociedade”. Já a versão forte “[...] seria revolucionária, crítica, na medida em que colaboraria não para adaptação do cidadão às exigências sociais, mas para o resgate da autoestima, para construção de identidades fortes para a potencialização de poderes [...].” A autora destaca a importância de a escola agregar a versão forte do conceito de letramento e inclusive destaca que a educação linguística necessita, impreterivelmente, levar em conta de maneira ética e democrática os multiletramentos e letramentos múltiplos. Rojo (2012) diferencia multiletramentos e letramentos múltiplos e aponta para a variedade e multiplicidade das práticas letradas, valorizadas ou não nas sociedades, considerando a diversidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos.
Fonte: Barth e Freitas (2014, p. 4).

A fim de reforçar as nossas constatações acima, ainda que estas pareçam aligeiradas, reforçamos a nossa tese com as palavras de Soares (2004, p. 18): “[...] Letramento é o resultado e a ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou condição de adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter se apropriado da escrita [...]”.
A essa altura você deve estar se perguntando: De que forma poderei contribuir para uma alfabetização que leve ao letramento? Ou ainda: Como eu posso construir um ambiente para alfabetizar letrando?
Para que você possa compreender como se dá o processo acima anunciado, julgamos pertinente apresentar uma citação de Soares (2010, p. 24), na qual ela faz referência ao termo passaporte. Com base nesse termo, podemos apresentar algumas possibilidades para que você construa um ambiente alfabetizador que leve ao letramento.
No processo de aprendizagem inicial da leitura e da escrita, a criança deve entrar no mundo da escrita fazendo uso de dois “passaportes”, precisa apropriar-se da tecnologia da escrita, pelo processo de Alfabetização e precisa identificar os diferentes usos e funções da escrita e vivenciar diferentes práticas de leitura e de escrita, pelo processo de letramento. Se lhe é oferecido apenas um dos “passaportes” – se apenas se alfabetiza, sem conviver com práticas reais de leitura e de escrita – formará um conceito distorcido, parcial do mundo da escrita; se usa apenas o outro “passaporte” – se apenas, ou, sobretudo, se letra, sem apropriar plena e adequadamente da tecnologia da escrita – saberá para que serve a língua escrita, mas não saberá se servir dela.
De acordo com a autora supracitada, o processo de ensino-aprendizagem não pode ser limitar apenas ao ato de ensinar a criança a decodificar o código da língua escrita, assim como podemos inseri-la no mundo das práticas sociais, sem uma apropriação plena e adequada da tecnologia da escrita. Sendo assim, é preciso observar o movimento e as especificidades de cada um desses passaportes para criar um ambiente alfabetizador que leve ao letramento. Nesse sentido, voltamos à nossa pergunta inicial: Como eu posso construir um ambiente para alfabetizar letrando?
Apesar de atualmente o termo “Letramento” ser conhecido e extremamente difundido, é preciso salientar que existe uma diversidade de ênfases na caracterização do fenômeno. Por exemplo, para Kleimann (1995, p. 19) letramento pode ser definido como “um conjunto de práticas sociais que usam a escrita enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos”. Nessa perspectiva, letramento é visto como ação, como prática e está intimamente relacionado com as consequências delas para a sociedade. Soares (2002, p. 145), por sua vez, apresenta letramento de forma mais ampla. Para essa autora, letramento deve ser concebido como sendo o “ estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa interação – os eventos de letramento.” Nesta perspectiva, letramento é o estado ou condição de indivíduos que participam competentemente de eventos de letramento.
Fonte: Barth e Freitas (2014, p. 4).

A organização do seu trabalho deverá pautar-se em diversos gêneros textuais. Nesse sentido você poderá utilizar livros, contos, jornais, bilhetes, fábulas, parlendas, histórias em quadrinhos, contos, música, folhetos, folders, receitas, e-mails, cartões, panfletos de supermercado com preços, entre outros. Faça uso desses gêneros e você verá o resultado na sua prática pedagógica de alfabetizar letrando.
Se uma criança que aprendeu a ler e a escrever não tiver contato com diversos gêneros textuais que fazem parte da sociedade letrada atual, ainda que ela não tenha acesso a todos os gêneros no seu dia a dia, é papel da escola e dos professores promover esse encontro, pois só assim estaremos contribuindo para uma inserção gradativa das crianças ao mundo letrado.
Gostaríamos de encerrar esse assunto, caro(a) aluno(a), com uma citação de Freire para que possamos refletir sobre o nosso papel enquanto alfabetizadores: “[...] Ninguém ignora tudo, Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. [...]” (FREIRE, 2011, p. 84).
O mundo está repleto de informação e conhecimento que se multiplica a cada dia, no entanto, não podemos ter acesso a tudo e sabermos tudo, mas não podemos, também, ignorarmos nossas responsabilidades enquanto educadores. Nesse sentido, todos nós sabemos alguma coisa e podemos contribuir para um processo de alfabetização com letramento.
Soares (1998) nos leva a refletir sobre o analfabetismo e sua superação e nos alerta, ainda, que não basta somente aprender a ler e a escrever, mas é preciso que as pessoas se alfabetizem para as práticas sociais de leitura e escrita.
À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática de leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se para envolver-se com as práticas sociais de escrita (SOARES, 1998, p. 45-46).
Consideramos, diante das afirmações da autora, que a escola é considerada uma agência importante para o passaporte dessas pessoas ao mundo letrado.
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