O processo de leitura e escrita está intimamente ligado ao nosso cotidiano, tudo o que fazemos necessita de leitura e/ou escrita. Como o processo de apropriação da leitura e escrita se dá pelo aluno? Como este ensino é organizado?
De acordo com Nemirovsky (2002) iniciou-se, no final da década de 70, uma revisão a respeito dos aspectos inerentes ao processo do ensino da leitura e escrita. Houve essa necessidade de investigar este assunto, pois, antes mesmo de o professor iniciar o processo de ensino da leitura e da escrita, a criança já possui interação com esta linguagem, faz levantamento de hipóteses e constrói conceitos a respeito deles. A autora ainda destaca que:
Durante a primeira metade dos anos 80, as propostas didáticas estiveram centradas em fazer da criança e da classe escolar sujeitos ativos, participantes e protagonistas, bem como fazer do professor um profissional que escuta, atende e entende os postos de vista dos alunos para intervir a partir deles. Isso quer dizer que empreendemos a tarefa de elaborar propostas didáticas centradas nos sujeitos do processo de aprendizagem para assim ensinar a ler e a escrever (NEMIROVSKY, 2002, p.19).
Mais tarde, passaram a considerar como objeto de estudo a leitura e a escrita.
Evidenciando o processo de aquisição da escrita das crianças, Teberosky e Colomer (2003) pontuam 4 quesitos comuns que as crianças costumam apresentar no “processo de construção do conhecimento da leitura e da escrita”, sendo estes:
1 – A criança constrói hipóteses, resolve problemas e elabora conceituações sobre o escrito;
2 – Essas hipóteses se desenvolvem quando a criança interage com o material escrito e com leitores e escritores que dão informação e interpretam esse material escrito.
3 – As hipóteses que as crianças desenvolvem constituem respostas a verdadeiros problemas conceituais, semelhantes aos que os seres humanos se colocam ao longo da história escrita (e não apenas problemas infantis, no sentido de respostas idiossincráticas ou de erros conceituais dignos de serem corrigidos para dar lugar à aprendizagem normativa).
4 – O desenvolvimento e hipóteses ocorrem por reconstruções (em outro nível) de conhecimentos anteriores, dando lugar a novas construções (assim acontece, por exemplo, com o conhecimento sobre as palavras, as expressões da linguagem, a forma e o significado do signo) (TEBEROSKY; COLOMER, 2003, p. 45).
Diante da exposição dos autores, podemos dizer que toda criança estará, provavelmente, imersa no mundo da leitura e escrita. O processo de aquisição destas habilidades pela criança se dá de forma gradativa, por meio da interação que esta possui com o material escrito.
De acordo com Teberosky e Colomer (2003), antes mesmo de entender o processo de escrita, as crianças já fazem diferenciação entre a escrita e o desenho, fazem combinação das letras e levantam hipóteses de escrita. Segundo as mesmas autoras:
Tais hipóteses não se referem ao significado das letras, mas têm relação com o plano gráfico, isto é, dizem respeito do fato de que as letras se combinam entre si e quantas são necessárias em uma combinação. Trata-se de ideias que funcionam como princípios organizadores do material gráfico, princípios que orientam a possibilidade de interpretar um texto ou de fazer leitura (TEBEROSKY; COLOMER, 2003, p. 46).
Como podemos verificar no desenho abaixo, onde a criança traz as letras que compõem o seu nome, juntamente com o desenho do seu autorretrato.

Diante disso, podemos dizer que a partir do momento em que as crianças começam a entender que o desenho é diferente da escrita, elas começam a ter noção de que a escrita possui uma função social. As crianças fazem a tentativa de entender a função social da escrita e suas regras, partindo da tentativa de escrita do nome.
As práticas que vêm sendo desenvolvidas, na maioria das aulas de Português das escolas de educação básica, ainda não demonstram o devido cuidado com o trabalho de análise do texto, que considera o ensino de ler e escrever como pontos de partida e de chegada para o ensino de Língua Portuguesa na escola. Observamos que o estudo da língua continua desvinculado da vida do homem e da vida em sociedade. Como dizem os Parâmetros Curriculares da Língua Portuguesa (PCNs) (1997, p. 36) “as pessoas aprendem a [...] ler quando, de alguma forma, a qualidade de suas vidas melhora com a leitura”. Percebemos que o trabalho de texto que tem sido feito em muitas salas de aula, muitas vezes, nem ensina Português, nem melhora a vida daqueles estudantes. Dentre tantos aspectos que poderíamos destacar, recortamos, para este momento, o trabalho com o texto nas aulas de Português – este que deve(ria) ser a unidade básica de ensino da língua, conforme dizem os PCNs.
Estudos já mostraram que as atividades de uma aula de Língua Materna/Portuguesa voltadas para a descrição do funcionamento da língua, de forma isolada, não contribuem para o desenvolvimento das habilidades de uso da língua, o que só ocorre na vivência de situações enunciativas, pois é por meio dessa vivência que o homem, desde criança, ocupa seu espaço de dizer e faz a passagem de locutor a sujeito, apropriando-se da língua de forma singular. Por essa razão, temos consciência de que o exercício pelo exercício não leva a nada. Não é através de atividades de catalogação de entidades, de classificação de palavras e de reconhecimento de suas funções na frase que alguém será capaz de usar a língua de forma eficiente e crítica nas diversas situações discursivas.
Fonte: Toldo e Dietrich (2015, p. 121).

Livro: Introdução à Linguística: objetos teóricos
Editora: Contexto
Sinopse: ao abranger os principais objetos teóricos da Ciência da Linguagem, o livro traz para os interessados na compreensão da linguagem humana um repertório que segue desde uma explicação do que é a Linguística, de como se processa a comunicação humana, até chegar a uma apresentação de seus cinco principais objetos teóricos criados nos séculos XIX e XX (langue, competência, variação, mudança e uso).

Livro: Linguística? Que é isso?
Editora: Contexto
Sinopse: a Linguística é uma ciência pouco conhecida ou completamente desconhecida pelas pessoas em geral. E, como é comum acontecer com aquilo ou com aqueles que desconhecemos, ela é constantemente alvo de prejulgamentos – tendo sido acusada inclusive de renegar a norma culta e de contribuir para a destruição da língua portuguesa por defender modos “errados” de falar. Ou seja – o preconceito não atinge somente os diferentes falares. A própria Linguística que os estuda é objeto de atribuições e rótulos infundados. Este livro, que reúne grandes especialistas da área, surge para explicar o que é, afinal, a Linguística. Para isso, trata das funções e características da linguagem humana, para depois discorrer sobre os cinco grandes objetos teóricos criados pela Linguística dos séculos XIX e XX – a língua, a competência, a variação, a mudança e o uso. Com um texto fácil e agradável, esta obra torna acessíveis questões complexas da ciência da linguagem – sem, entretanto, simplificá-las - tanto para estudantes e professores de línguas como para interessados em geral.

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